quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

El Diabo e Mi Persona.

Ah, o folk. Estilo que viveu grandes momentos em sua história sendo confundido com o rótulo "song/songwriter": desde os versos um tanto agitados de Bob Dylan até a melancolia suicida de Elliott Smith e Jeff Buckley. O artista que ganha destaque nesse post que se encaixa mais na segunda definição citada, mas que não carrega tanta tristeza em suas letras. "The Devil And I", por Lone Wolf, projeto de Paul Marshall.


A apresentação de Paul Marshall ao mundo da música foi "Vultures", disco lançado em 2007 e que ganhou boa recepção de alguns críticos. Mas a verdade é que o estilo construído dentro de seu debut (vocais quietos e muito silêncio provocando uma sensação atmosférica) já não tinha muito futuro em 2010: Damien Rice tinha atingido o sucesso dois anos antes do lançamento de "Vultures" com o single "The Blower's Daughter", José Gonzales consegira mais destaque do que Paul, mesmo lançando seu trabalho quase um ano depois que Paul, e Justin Vernon simplesmente se tornou uma lenda em 2008, aperfeiçoando o tipo de música feito pelos quatro artistas citados em seu magnum opus, lançado usando o nome Bon Iver, "For Emma, Forever Ago". Isso explica a pequena mudança de rumo nesse novo projeto, dexando seu antigo estilo de lado, e indo em direção ao indie folk, mais melódico e solto, mas mesmo assim bem melancólico.

A primeira faixa já dá essa impressão. "This Is War" parece um encontro entre Bonnie "Prince" Billy e Sufjan Stevens, levada pelo excelente piano e orquestrações bem ao estilo das que Carlos Dengler fez para o "Our Love To Admire" (bons tempos em que o Interpol ainda tinha um baixista). Esse instrumental carrega toda a música, que se diferencia nos vocais, onde se originam comparações com Billy. Eles tem um peso enorme, chegando a ser desconfortantes, mas encaixam com tanta perfeição nos leves arranjos que o final épico mais parece um epílogo do que a "explosão" da música (o que os menos atentos podem considerá-lo, mas eles estarão errados, a música já chegou ao ápice há muito tempo).

O álbum segue com "Keep Your Eyes On The Road", que começa com um violão melódico e muito bem trabalhado. A voz de Paul Marshall chega como um choque, deixando uma sensação de poder que poucos conseguem fazer e que não tinha aparecido muito na primeira faixa. A música evolui de uma forma impressionante, sendo que essa tem sim seu ápice no final, que é extremamente épico. É possível dizer que o conjunto de ritmo e letra causa a impressão de estarmos ouvindo "Figure 8" de Elliott Smith, muito por causa da falsa alegria exposta. O que não acontece em "We Could Use Your Blood", uma faixa com apenas violão, voz e certos metais, uma típica música folk em que você imagina o artista cantando cabisbaixo e de olhos fechados.


Após tres faixas fantásticas seria aceitável uma decaída na qualidade (e sim, eu esperei), o que não aconteceu na quarta faixa, "Buried Beneath The Tiles", levada basicamente por violão e orquestrações e que contém uma grande variedade de melodias, o que começa a se tornar marca registrada do trabalho. "15 Letters" é uma faixa que com certeza acordará os ouvintes mais desatentos. O trabalho simples de violão torna a música acessível e gostosa de se ouvir, pena que essa mesma qualidade acaba a tornando muito enjoativa, resistindo a poucas audições, mas não a chamaria de ponto fraco.

Você vai precisar de um pouco de sensibilidade se não estiver acostumado com músicas do tipo de "The Devil And I (Part 1)" para não pular de faixa. Mesmo com um arranjo lindo de piano, o ouvinte "comum" tende a encontrar nela um trabalho chato e repetitivo, mas aqueles que resistirem até a entrada da percurssão terão uma bela surpresa com o lado mais bonito e "escondido" da música. Ela encerra impressionando e já deixando o álbum com um saldo positivo, afinal, até agora são seis faixas de pura excelência.


Já foi escrito por mim em algum lugar dessa resenha sobre a variedade de melodias usadas nesse trabalho, mas repito o fato por causa de "Russian Winter", outra bela faixa carregada pela voz de Paul, retornando ao clima folk melancólico de "We Could Use Your Blood" e "Buried Beneath The Tiles". O que muda um pouco em "Soldiers", começando com um climão de música folclórica de guerra e que depois se entrega a outra bela melodia ao ritmo de palmas imitando uma possivel marcha, tudo referente ao título, claro.

A essa altura não se espera muito das duas últimas canções, afinal, com oito ótimas músicas seria completamente normal o final ser um estrago, mas o que acontece é exatamente o contrário: "Dead River" tem uma das melhores letras do álbum, destacando o refrão: "Now the air is sourer than a mortuary morning, but we're not dead yet! No... We were alive like the rivers in the springtime. Overflow, overflow, overflow." Melhor ainda sendo cantado em uma melodia maravilhosa acompanhada por arranjos de piano e violão que superam parte do que já fora exibido por Paul no trabalho, e o arranjo de cordas no final da faixa... bom, eu deixo pra você descobrir.


Bom, se tivemos a primeira parte, então temos que ter a segunda. E "The Devil And I (Part 2)" chega para confirmar a perfeição que começou a ser suspeitada na segunda parte do disco. Levada pelo piano, cantada com maestria e com melodia impressionante, ela é um exemplo de música popular flertada com o erudismo, é díficil falar sobre algo onde tudo é perfeito, o que acontece com a faixa derradeira.


A coisa que mais me impressionou depois de alguns meses ouvindo "The Devil And I" é como ele continua a estar na minha playlist, e como o poder de "replay", tão importante para games, começa a tornar o trabalho um clássico. Ele esteve presente comigo em épocas tristes e felizes, tendo sido minha primeira opção ao abrir o player e ainda sendo. Diria que, mesmo já pulando "15 Letters" as vezes, dificilmente deixo de ouvir alguma parte dele quando começo a ouví-lo, sempre tendo a impressão de que estou ouvindo algo perfeito. Como um exemplo de crescimento no meu gosto e de algo memorável, "The Devil And I" é o primeiro clássico que eu espero estar apresentando.


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